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Opinião

ESTADOS UNIDOS - Eleições e indocumentados

Ilka Oliva Corado

quinta-feira 21 de abril de 2016, por Ilka Oliva Corado

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Em qualquer lugar do mundo, sob qualquer circunstância, os imigrantes indocumentados sempre são os mais golpeados dos sistemas. Invisíveis como pessoas e visíveis como algo valioso para saquear. Dos imigrantes indocumentados aproveita-se o país de origem que os obriga a emigrar; em troca dessa ingratidão recebe as remessas que eles enviam e que são as que mantêm o país de pé. Aproveita-se o país de passagem que desrespeita seus direitos humanos e a liberdade de trânsito. Os sequestra, tortura e desaparece. E por último também os utiliza o país de chegada que se converte eventualmente no país de residência.

Um exemplo claro disso é a crise que se está vivendo na Europa, que em uma amostra de desumanidade lhes está fechando as portas e os deixa à sua sorte. Mais propriamente das migrações forçadas na América Latina, ressaltam as do triângulo norte da América Central e México que buscam chegar aos Estados Unidos. É uma crise perene por causa da ingerência estadunidense com a Operação Condor e os governos neoliberais que surgiram então. Atualmente um sistema que os marginaliza e os oprime. Governos corruptos e de caráter lacaio.

Nos Estados Unidos os imigrantes indocumentados são indispensáveis como mão de obra barata, mas excluídos como seres humanos. Lhes negam os benefícios trabalhistas e se lhes abusa nos direitos humanos. Nos tempos de eleições presidenciais tomam notoriedade e se convertem no tesouro mais precioso do partido Democrata e Republicano. Constantemente os citam nos debates, entrevistas e comícios. Uns a favor e outros contra: só na palavra, porque na ação ambos os partidos os abusam e se beneficiam dessa modalidade de escravidão. O Democrata não é um partido de esquerda e muito menos socialista como muitos acreditam. É tão recalcitrante como o Republicano, para não ir tão longe aí está o “legado” que deixa Obama, que bem faria em devolver o Nobel da Paz que lhe entregaram.

Os meios de comunicação afins ao sistema nos querem fazer ver as eleições desde a perspectiva que lhes convém. Por um lado, cobrir absolutamente tudo o que diz respeito a Trump. Trump como candidato político é uma criação dos meios de comunicação mais que dos milionários que o apoiam. Os meios editam, lhe sobem o tom, o fazem popular, o lançam às massas e o promovem. Poderia se dizer que para favorecer Hillary Clinton, e talvez esse seja o jogo, mas nunca imaginaram que com Trump despertariam o ódio racial e a xenofobia que sempre existiu na sociedade anglo. E não seriam centenas, mas milhares os que o apoiam. Vendo-o em perspectiva eram assim a jogada: criar uma onda de reação anti-Trump, não cobrir Sanders e dirigir as massas à Hillary Clinton.

A princípio diziam que era um louco. Não, Trump não é um louco. Louco e sonhador poderia ser Bernie Sanders, mas Trump é um fanático extremista igual a Ted Cruz e Marco Rubio. Sanders não é a excelência, não é o candidato ideal, mas é o que mais se aproxima da imagem de um governo que se abstenha de se intrometer em assuntos políticos de outros povos. Ou seja: que deixe de invadir territórios e realizar genocídios e crimes contra a humanidade em nome de sua supremacia caucásica. Também oferece saídas congruentes à política interna do país. A Sanders o seguem somente os loucos sonhadores que nos Estados Unidos são tão escassos.

Coisa diferente está acontecendo com Hillary Clinton que, como a Obama, o idealizaram por ser negro (a seu gosto), a ela, por ser mulher. Manipula-se isso e logo lhe choca a uma mulher. Sim, é hora que os Estados Unidos tenham uma presidenta mulher, mas não Hillary Clinton. As cartas estão marcadas, de sobra se sabe que quem ganhará a presidência será Hillary Clinton. É a candidata proposta pelo sistema e a que o defende com unhas e dentes. A sociedade estadunidense é uma das mais cegas do mundo, por causa do sistema capitalista que utiliza o consumismo como sua arma letal. Os deixa muitos entretidos em banalidades para que pensem e atuem politicamente.

Salvo que a juventude reaja e dê uma virada no último momento e vote por Sanders, coisa que é difícil que aconteça. O voto não se muda de um dia para outro e as mentes que foram trabalhadas durante anos já estão feitas a um tipo de pensamento fanático, tratando-se propriamente da resposta à midiatização. E neste caso a batuta quem leva é Hillary Clinton, por seu esposo que foi presidente e pelo papel que ela desempenhou no governo estadunidense durante décadas.

Obviamente que um fator muito importante é o descaramento que tem tido para se declarar feminista e com isso roubou a bolsa de milhares de mulheres estadunidenses que anseiam igualdade de direitos (infelizmente até a própria Dolores Huerta). Utiliza o feminismo da mesma forma que utiliza a Reforma Migratória e o tema das deportações. Com isso tem ganhado vantagem em ambos os setores da sociedade. Muito mais para dizer tem Sanders, mas a mídia não o cobre, por quê? Porque suas propostas são contra o sistema e caso sua presidência se torne realidade e se ele mantém sua palavra muitas coisas mudariam para as maiorias nos Estados Unidos e na política exterior.

Por sua vez, Trump se declara completamente anti-imigrante latino-americanos. Não espanta que a Patrulha Fronteiriça tenha declarado há alguns dias que o apoia. A comunidade latino-americana que é a maior das minorias nos Estados Unidos é vital para as eleições. Por essa razão, a Univisión, que é a rede mais vista pela comunidade latina nos Estados Unidos, realiza em espanhol o debate democrata. Seus empresários são Democratas anti-América Latina e anti-Cuba.

Um ás na manga tinha Jorge Ramos (que foi um dos moderadores) e a multidão que seguia o debate pela televisão nem conta se deu de que a roubaram a bolsa e da forma mais fácil. Disse no começo que sua filha trabalhava para a campanha de Hillary Clinton. E Jorge Ramos é um jornalista muito querido pela comunidade, sua voz converte em marionetes as massas e as manipula ao seu capricho. Ramos é anti-Cuba e anti-governos progressistas, é um jornalista que corresponde ao sistema e o defende.

Além de ser antiético o comentário com este deu vantagem a Hillary Clinton sobre Sanders. E o menciono neste artigo porque foi manipulação e é preciso denunciá-lo. Hillary Clinton este de acordo em deportar crianças e adolescentes que entraram no país ano passado na chamada crise de crianças que viajavam sem companhia de um adulto. Resta dizer que foi uma crise criada para implementar o Plano Fronteira Sul e o Maya-Chortí, que militariza desde a fronteira sul dos Estados Unidos até Honduras e que só tem servido para que as autoridades migratórias mexicanas desumanizem ainda mais o trato com os migrantes em trânsito.

No debate Sanders deixou calados os moderadores e os assitentes anti-Cuba quando falou da Operação Condor na região e da ingerência estadunidense não só na América Latina, disse especificamente na Nicarágua e Guatemala. Está contra o bloqueio que os Estados Unidos têm a Cuba e pede o fechamento de Guantánamo, por sua vez Clinton apoia a ingerência estadunidense na região. Que feminista estaria de acordo com algo assim? Nenhuma que seja feminista real.

Cabe ressaltar o papel primordial que desempenhou a denúncia que fez a migrante guatemalteca Lucía Quiej que denunciou as deportações massivas de pais de família. E assim como ela há milhares. Veremos quanto aumentam as deportações quando Hillary Clinton chegar à presidência. Ela representa em sua totalidade a continuidade do sistema, isso que seja mulher não significa nada, tanto ela como mulher e Obama como negro são afins à opressão. Mudará o panorama nos próximos meses? Despertará a sociedade estadunidense e irá por uma virada ainda maior votando em Sanders? Existirá a utopia em um país como os Estados Unidos depois de Martin Luther King, Rosa Parks e Malcolm X? Qual é o futuro para os imigrantes indocumentados? Quando despertarão os milhões de indocumentados e farão sentir seu valor humano?


@ilkaolivacorado

contacto chez cronicasdeunainquilina.com

Tradução: Diário Liberdade

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